RESUMO: Um dos debates mais prementes na arqueologia, antropologia, museologia e nos estudos críticos do patrimônio é o da repatriação, restituição e reenterramento de ancestrais indígenas e materiais culturais. Nas últimas décadas, esse campo tem experimentado um importante desenvolvimento tanto em normativas internacionais quanto em códigos de ética profissional e reflexões acadêmicas, muitas delas impulsionadas por pesquisadores e ativistas indígenas. Da mesma forma, têm emergido propostas alternativas —como curadoria compartilhada, repatriação ética, e empréstimo comunitário — que ampliam o repertório de opções frente a essas demandas.
No entanto, esses avanços coexistem com uma reconfiguração desses processos em determinados contextos. Embora as demandas pelo retorno de ancestrais façam parte das lutas indígenas desde meados do século XX, observa-se atualmente uma crescente intervenção do Estado, da ciência e até mesmo do setor privado, gerando disputas, tensões e negociações em torno do controle, significado e destino desses corpos e materiais. Inclui-se também neste debate as chamadas repatriações digitais, processos aparentemente mais “simples” do ponto de vista burocrático, mas que guardam questões complexas, que podem marcar e aprofundar assimetrias entre instituições de guarda e as populações indígenas. Nesse contexto, os processos de retorno não devem ser entendidos apenas como práticas éticas ou medidas de reparação, mas como espaços de confrontação política e epistêmica, como campos de disputa pela soberania sobre os mortos, os territórios, as memórias e suas materialidades.
Essas tensões assumem configurações particulares na América Latina. Enquanto em países como Chile e Argentina existem experiências fortemente lideradas por povos indígenas, em outros casos evidencia-se uma apropriação desses processos por parte de agendas estatais ou patrimonialistas, que tendem a deslocar ou neutralizar o sentido político com o qual se originaram nos territórios indígenas. Em países como Peru e México, por exemplo, os retornos são frequentemente enquadrados como recuperação do “patrimônio nacional”, sem uma participação efetiva das comunidades indígenas vinculadas. No Brasil, por sua vez, o debate começa a incorporar noções como “bens sensíveis” e “lugares sagrados”, ampliando o campo de discussão.
A partir desse cenário, este simpósio propõe interrogar criticamente os processos de retorno na América Latina não como gestos reparatórios em si mesmos, mas como práticas que, em alguns casos, podem ser ambivalentes, capazes tanto de reproduzir lógicas coloniais quanto de possibilitar formas de resistência e rearticulação de povos indígenas e comunidades tradicionais. Em particular, interessa examinar como diferentes regimes de valor —estatais, científicos, indígenas e de comunidades tradicionais— entram em fricção, e em que medida os marcos patrimoniais contemporâneos funcionam como dispositivos de despolitização das lutas pelo controle dos ancestrais.