SIMPÓSIO 18 – ENTRE O NORDESTE E A AMAZÔNIA: PAISAGENS, MOBILIDADE E REDES DE INTERAÇÃO NO CONTEXTO SUL- AMERICANO

RESUMO: A Arqueologia do Nordeste brasileiro tem se consolidado, nas últimas décadas, como um campo estratégico para a compreensão das dinâmicas históricas e pré-coloniais das terras baixas da América do Sul, particularmente em sua articulação com a Amazônia. Longe de constituir uma região periférica, o Nordeste emerge como zona de convergência entre sistemas ecológicos, redes de mobilidade e tradições culturais que conectavam o litoral atlântico, o semiárido interiorano e os grandes corredores hidrográficos amazônicos. A diversidade ambiental nordestina — que abrange o semiárido da Caatinga, zonas costeiras e estuarinas, sistemas fluviais e áreas de transição com o Cerrado e a Amazônia — produziu paisagens intensamente habitadas e transformadas ao longo de milênios. Essa complexidade se expressa em um registro arqueológico igualmente plural, que inclui sambaquis litorâneos e fluviais, sítios ceramistas associados a populações Tupi e Jê, assentamentos em ambientes aquáticos, oficinas líticas e sítios históricos vinculados a engenhos, quilombos e núcleos urbanos coloniais. As estearias maranhenses destacam-se como exemplo emblemático dessas dinâmicas, com excelente preservação de materiais arqueológicos datados entre aproximadamente 9000 e 800 anos AP. O Nordeste, nesse sentido, integra redes de longa distância que articulavam o baixo Amazonas, as planícies aluviais do centro-leste do continente e, indiretamente, os Andes, configurando uma malha inter-regional dinâmica. A circulação de matérias-primas e artefatos de prestígio, como muiraquitãs, indica que as conexões entre Amazônia, Andes e o Nordeste brasileiro não se limitaram a intercâmbios esporádicos, mas constituíram circuitos estruturados de comunicação e reciprocidade, nos quais paisagens fluviais amazônicas funcionavam como eixos articuladores entre terras baixas e terras altas. Tais evidências desafiam modelos isolacionistas e sugerem uma história compartilhada entre Nordeste e Amazônia, marcada por mobilidade, intercâmbio material e convergências cosmológicas. Assim, a Arqueologia do Nordeste brasileiro e da Amazônia se afirmam não apenas como campo regional consolidado, mas como eixo interpretativo fundamental para repensar processos de mobilidade, territorialidade e interação inter-regional na América do Sul. Convidamos pesquisadores que trabalham com essa perspectiva de articular diversidade ambiental, robustez empírica e inovação teórica para apresentar comunicações que versam sobre a construção de interpretações mais integradas sobre as formas pelas quais diferentes sociedades ameríndias habitaram, transformaram e significaram suas paisagens em escala continental.