SIMPÓSIO 29 – MATERIALIDADES CERÂMICAS E MEMÓRIAS OUTRAS: PRÁTICAS CONTRACOLONIAIS NA ARQUEOLOGIA SUL-AMERICANA

RESUMO: Este trabalho insere-se no campo das teorias arqueológicas críticas na América do Sul, articulando de forma complementar perspectivas pós-coloniais e decoloniais, orientadas por um posicionamento contracolonial, no debate sobre arqueologias pela democracia, a partir da análise da materialidade cerâmica. Parte-se da compreensão de que a cerâmica arqueológica, para além de seu valor tipológico, tecnológico ou cronológico, constitui um artefato político, mediador de memórias sociais, territorialidades e disputas simbólicas historicamente atravessadas pela colonialidade do poder, do saber e do ser.  A proposta problematiza os regimes eurocêntricos de produção do conhecimento arqueológico que, ao reduzir essas materialidades à condição de meros objetos de análise, tendem a silenciar experiências, saberes e práticas históricas de povos indígenas, comunidades afro-diaspóricas e grupos tradicionais. Nesse sentido, defende-se a incorporação de epistemologias contraeurocêntricas, articuladas a uma perspectiva contracolonial, capazes de reconhecer a materialidade cerâmica como agente constitutivo de vivências coletivas e individuais, relações de trabalho, sistemas de aprendizagem e transmissão de saberes, ancestralidades e estratégias de resistência cotidiana. A cerâmica é compreendida como tecnologia social e relacional, profundamente vinculada a práticas territoriais, corporeidades e dinâmicas de gênero, cuja persistência, transformação ou ressignificação expressam estratégias de enfrentamento aos processos coloniais e antidemocráticos. A arqueologia comunitária, pública e colaborativa é mobilizada como eixo metodológico, ético e político para a construção de diálogos simétricos com as comunidades envolvidas, deslocando a cerâmica do lugar de objeto passivo de análise para compreendê-la como agente ativo na produção de narrativas plurais sobre o passado. Nessa perspectiva, a materialidade cerâmica torna-se fundamental para a ressignificação de memórias coletivas, para a afirmação de identidades e para o fortalecimento de vínculos territoriais. O trabalho também dialoga com a arqueologia da violência e da resistência, considerando a cerâmica como suporte material de memórias dissidentes e de práticas cotidianas historicamente invisibilizadas por regimes autoritários, coloniais e ditatoriais. Ao reconhecer o caráter situado do conhecimento arqueológico frente a materialidade, a proposta contribui para o fortalecimento de arqueologias comprometidas com a democracia, com a justiça epistemológica e com a construção de patrimônios inclusivos, críticos e socialmente engajados na América do Sul.