SIMPÓSIO 6 – ARQUEOLOGIAS DO CONTEMPORÂNEO EM AMÉRICA DO SUL

RESUMO: Há algum tempo atras as chamadas arqueologias do passado contemporâneo (Buchli e Lucas 2001), Arqueologias do presente (Rathje 1979, Miller 2013) ou Arqueologias da Supermodernidade (Ruibal 2008, 2018) vem ganhando espaço dentro da Arqueologia Histórica. Trata-se de um campo que se dedica ao estudo material de períodos muito recentes, sobretudo dos séculos XX e XXI, investigando vestígios associados a sociedades ainda vivas ou muito próximas no tempo. Diferentemente da arqueologia tradicional, que se concentra em passados mais distantes, estas abordagens buscam compreender como processos históricos recentes — como industrialização, guerras, ditaduras, globalização e transformações tecnológicas — se materializam em objetos, paisagens e infraestruturas. Assim, estes estudos ampliam o escopo da disciplina ao reforçar que o presente não só produz registros arqueológicos significativos, mas também pode ser objeto de análise da arqueologia.

Um dos principais aportes dessas perspectivas é a valorização de materialidades frequentemente negligenciadas, como resíduos urbanos, espaços abandonados, campos de conflito, centros de detenção ou instalações industriais desativadas. Esses contextos permitem analisar práticas sociais, relações de poder e dinâmicas de exclusão a partir de evidências concretas, muitas vezes tensionando narrativas oficiais ou documentais. Além disso, as arqueologias do contemporâneo dialogam intensamente com outras áreas, como a antropologia, a história e os estudos culturais, incorporando questões éticas e políticas relacionadas à memória, ao patrimônio e à justiça social.

Por fim, esse campo também provoca reflexões teóricas importantes ao desafiar fronteiras tradicionais da disciplina, como a separação entre passado e presente ou entre sujeito e objeto. Ao investigar materialidades ainda em circulação ou recentemente descartadas, a arqueologia do passado contemporâneo evidencia a continuidade dos processos históricos e a participação ativa dos vestígios na construção de significados sociais. Dessa forma, contribui para repensar o papel da arqueologia no mundo atual, destacando seu potencial crítico para compreender e intervir em problemáticas contemporâneas.

Por tudo o mencionado no simpósio propomos, dentro de uma perspectiva que incorpora uma forte dimensão ética e política, dar espaço a propostas de pesquisas que defendem uma arqueologia engajada, capaz de dar visibilidade a histórias silenciadas e de problematizar narrativas hegemônicas, dentro das arqueologias do contemporâneo. Consideramos que ao investigar materialidades recentes e muitas vezes incômodas, a arqueologia contribui para repensar o papel social da disciplina, destacando seu potencial não apenas interpretativo, mas também crítico e interventivo diante das dinâmicas do mundo contemporâneo.