RESUMO: Para este simpósio, ativamos a noção de retomada, uma categoria indígena mobilizada por diversos povos no Brasil [especialmente na região nordeste, mas não só] para expressar os processos de recuperação e reocupação de seus territórios tradicionais. As retomadas indígenas movimentam trajetórias históricas e ações cotidianas de resistência, reativação de memórias e de pertencimento à terra. Além disso, ao ser ativada na relação entre pessoas (humanas, outras-que-humanas), as retomadas se configuram como uma proposta cosmopolítica, onde o mundo daquelas pessoas outras-que-humanas se torna um aspecto fundamental não apenas para a luta contra o colonialismo, o capitalismo e os impactos do neoliberalismo, mas fundamentalmente, para a transformação das ciências modernas, no mundo contemporâneo e na construção de outros mundos possíveis.
Territórios podem ser entendidos como paisagens em movimento, pois [en]corporam histórias e ontologias que se inscrevem nos lugares, corpos, práticas cotidianas, linguagens, rituais e tecnologias. Frente aos processos de desterritorialização, à perda de parte de seus antigos territórios e à luta pela garantia constitucional do direito à terra, indígenas têm buscado, através da arqueologia, formas de revisitar os territórios que lhes foram tomados, de reviver seus processos históricos de deslocamento, ou ainda, de reivindicar a reapropriação e proteção de seus lugares sagrados e significativos, cada vez mais ameaçados por interesses econômicos de grupos divergentes nos territórios e paisagens. Ao longo do século XXI, essas experiências têm desafiado a arqueologia a repensar tanto os seus princípios ontológicos e epistemológicos, quanto o caráter social e político das suas práticas e da gestão do que se convencionou chamar de patrimônio arqueológico.
Portanto, para este simpósio, convidamos pesquisadoras e pesquisadores indígenas e não-indígenas a refletirem conosco sobre as práticas arqueológicas, considerando as múltiplas temporalidades que lugares e paisagens agenciam frente à tradição oral, à memória e às experiências arqueológicas ‘nos’ territórios e com artefatos/materiais ‘dos’ territórios, sejam esses últimos definidos pela ciência como ‘arqueológicos’ ou ‘etnográficos’; sobre o papel político da arqueologia na preservação e proteção desses lugares e paisagens; e sobre a reflexividade arqueológica envolvida nessas experiências.