SIMPÓSIO 12 – DISCUSSÕES TEÓRICAS NAS ARQUEOLOGIAS DIGITAIS E COMPUTACIONAIS

RESUMO: A arqueologia digital e computacional experimentou um crescimento notável nas últimas décadas, consolidando-se como um dos campos mais dinâmicos dentro da disciplina arqueológica. Esse desenvolvimento está intimamente ligado aos avanços tecnológicos e à crescente disponibilidade de ferramentas computacionais, bancos de dados massivos, sistemas de informação geográfica, modelagem estatística e simulações, que expandiram significativamente as capacidades analíticas da pesquisa arqueológica. Essas metodologias possibilitaram abordar questões em escalas espaciais e temporais antes inatingíveis, bem como integrar grandes volumes de dados heterogêneos de maneira sistemática e reproduzível. Simultaneamente, e em parte como reação à desilusão gerada por certas correntes extremas da arqueologia interpretativa, o campo testemunhou um renovado interesse por abordagens quantitativas. Embora esse retorno não implique necessariamente uma rejeição da interpretação, ele representa uma busca por estruturas analíticas que permitam a avaliação de hipóteses, o teste de modelos e a formalização explícita de inferências sobre o passado. Neste contexto, as arqueologias digitais e computacionais têm sido valorizadas por sua aparente neutralidade metodológica, rigor técnico e capacidade de produzir resultados comparáveis e replicáveis.

Contudo, para além dos seus evidentes benefícios analíticos e técnicos, uma das características mais problemáticas que têm marcado esta subdisciplina nos últimos anos é a relativa escassez de debates teóricos explícitos. Frequentemente, modelos computacionais, algoritmos e decisões metodológicas são apresentados como ferramentas técnicas desprovidas de pressupostos teóricos, quando na realidade incorporam perspectivas específicas sobre o comportamento humano, a ação humana, o espaço, o tempo, a causalidade e a própria natureza do registo arqueológico. A falta de reflexão crítica sobre esses pressupostos pode levar à naturalização de certos quadros conceptuais e à reprodução acrítica de narrativas sobre o passado. Esta sessão visa abrir um debate crítico e pluralista sobre os fundamentos teóricos implícitos e explícitos da arqueologia digital e computacional, bem como o seu impacto na construção do conhecimento arqueológico e das narrativas históricas. Procura problematizar a relação entre teoria, método e técnica, questionando até que ponto as ferramentas digitais condicionam as questões de investigação, os resultados e as interpretações. Em particular, os participantes são convidados a discutir como essas abordagens podem dialogar com perspectivas latino-americanas, decoloniais e críticas, contribuindo não apenas para inovações metodológicas, mas também para estruturas interpretativas mais reflexivas, situadas e conceitualmente robustas.