RESUMO: O desenvolvimento da teoria nas Arqueologias na América do Sul tem percorrido os mais variados caminhos. Em um cenário continental profundamente marcado pelo colonialismo, a Arqueologia científica, estabelecida na América do Sul há mais de 100 anos, consolidou teorias e métodos próprios para interpretar as mais diversas expressões culturais presentes no continente. Com o predomínio de escolas americanas e europeias, a natureza explicativa dos modelos científicos se estabelece em pressupostos ontológicos e epistemológicos completamente distintos da realidade social de vários grupos e populações do continente. Programas, missões e projetos científicos de Arqueologia estão hoje sob escrutínio. Populações indígenas, por exemplo, têm reivindicado a repatriação e restituição de bens culturais, estes, apropriados para análises e pesquisas científicas, além da busca por legitimidade e autonomia na interpretação e narrativa sobre estes bens culturais. Sendo assim, quem pode, como e quais são as formas de interpretar o passado? Estas são perguntas fundamentais para compreendermos a produção das teorias, métodos, coleções, arquivos e histórias das Arqueologias na América do Sul, que se expressam nesta disputa entre as narrativas oficiais e institucionais e as narrativas marginalizadas e não-científicas. É oportuno traçar estes percursos em escala continental, pois nos permite estabelecer comparações entre as diversas realidades e identificar possibilidades de investigação ainda não exploradas. Neste sentido, este Simpósio pretende realizar as discussões a partir de três grupos de questões: 1) como as missões científicas internacionais influenciaram no desenvolvimento da teoria e institucionalização das Arqueologias na América do Sul? Como o discurso oficial da Arqueologia produzido por estas missões científicas definiu a autoridade e o campo de atuação profissional?; 2) como o pluralismo epistemológico e a interdisciplinaridade impactam na natureza explicativa da teoria arqueológica? Como a incomensurabilidade produz tensões na disputa entre as teorias arqueológicas e outros modelos explicativos? 3) é possível reconhecer uma ontologia diferente da nossa unicamente através do registro arqueológico? Outras ontologias, além daquelas propostas por Philippe Descola, teriam existido no passado? Se sim, como identificá-las através da Arqueologia? Portanto, este Simpósio busca contemplar um amplo conjunto de reflexões críticas sobre as teorias desenvolvidas nas Arqueologias na América do Sul.