RESUMO: A presença da Arqueologia em projetos/obras de restauração não é uma novidade. No Brasil, por exemplo, essa interface ocorre desde pelo menos a década de 1930, quando do desenvolvimento dos trabalhos nas missões jesuíticas no sul do país empreendidos pelo IPHAN. Embora os projetos de restauração sejam muitas vezes encabeçados por arquitetas/os e restauradoras/es, a Arqueologia tende a se fazer presente – seja devido a obrigatoriedade legal ou para elucidar questões postas pelos profissionais da restauração.
De modo geral, tem-se observado dois caminhos que levam à interface entre Arqueologia e Restauração: por um lado, há trabalhos nos quais a Arqueologia atua na produção de dados imediatos para suprir necessidades específicas do projeto de Restauração, por vezes preenchendo lacunas acerca das informações sobre o bem, sem explorar suas potencialidades investigativas. Por outro, vemos trabalhos interessados na produção de informações sistematizadas que vislumbrem as relações sociais materialmente cristalizadas no bem restaurado. Essa perspectiva utiliza do momento oportuno que é a restauração para aprofundar o conhecimento sobre o bem, contribuindo, inclusive, na sua preservação e melhor gestão.
São inegáveis, portanto, as contribuições do trabalho arqueológico inserido em obras de restauração: ele pode oferecer controle espacial do bem imóvel e de seus arredores, garantindo a localização e contextualização dos achados durante a obra. É capaz de trazer à tona novas narrativas acerca do bem, apresentando grupos sociais a ele relacionados que foram invisibilizados pela historiografia. A Arqueologia possui, ainda, ferramentas metodológicas para reconhecer estratigrafias construtivas, identificando demolições, reconstruções, sobreposições, bem como as diferentes técnicas aplicadas na edificação do bem. Se realizada a priori, tem condições de apontar elementos que podem ter passado despercebidos ou são desconhecidos pelas/os profissionais de restauração, de modo a contemplá-los no projeto a ser executado. Além de ter a capacidade de aproximar a comunidade, fortalecendo os laços de pertencimento em relação ao patrimônio. Tudo isso mostra-nos as potencialidades da Arqueologia nas obras de restauração, mas que pouco são apresentadas e debatidas em periódicos e simpósios.
Não obstante os benefícios que a interface entre Arqueologia e Restauração pode oferecer, a relação entre as áreas nem sempre ocorre de forma amistosa, sendo desafiador desenvolver uma parceria de trabalho na qual arqueólogas/os, restauradoras/es e arquitetas/os calibrem suas especificidades profissionais em prol de um objetivo em comum que é a preservação do patrimônio – ainda que cada um a seu modo.
Postas todas essas questões, propomos esse simpósio a fim de criar um espaço de trocas e discussões acerca do papel e das contribuições que a Arqueologia pode oferecer aos projetos de restauração na América do Sul.