SIMPÓSIO 4 – ARQUEOLOGIA E NECROPOLÍTICA NA AMÉRICA LATINA: MATERIALIDADES DA VIOLÊNCIA POLÍTICA CONTEMPORÂNEA

RESUMO: A Arqueologia Contemporânea, ou a Arqueologia do Presente, é um campo de pesquisa que ganhou força a partir do século XXI e que teve a investigação de contextos e eventos de violência atrelados a necropolíticas como um de seus principais impulsionadores. A necropolítica, conceito formulado por Achille Mbembe, refere-se ao poder de decidir quem pode viver e quem deve morrer, por meio da produção e gestão de condições de morte. Está diretamente relacionada à violência sistemática, abandono ou eliminação aos quais determinados grupos são expostos ao longo da história – regimes de poder que produziram e continuam produzindo materialmente a violência e a morte. Na América Latina, nas últimas duas décadas, pesquisas que abordam os sistemas de necropolíticas passadas e atuais em diferentes países se fortaleceram e se multiplicaram: estudos sobre conflitos armados, racismo, penitenciárias/prisões, colônias de Hanseníase, hospitais psiquiátricos, o desaparecimento de corpos, a Pandemia de COVID-19, sobre as violências perpetradas contra os povos originários, sobre os crimes humanitários cometidos pelos Estados durante as ditaduras, o colapso ambiental, entre outros. Essas pesquisas compartilham alguns pontos importantes: são comprometidas politicamente e dão visibilidade para patrimônios e memórias subalternas que foram e/ou ainda são minimizadas, distorcidas e silenciadas por narrativas e políticas atreladas às estruturas de poder que se construíram a partir de violências contra grupos historicamente marginalizados na América Latina. A memória material de passados dolorosos impacta profundamente a relação que uma sociedade constrói com aquele passado e pode ser tanto um elemento de apagamento quanto uma base para a resistência contra o esquecimento patrocinado pelo Estado, tornando-se, assim, um campo de batalha para narrativas políticas. Esses estudos se fazem ainda mais necessários considerando o contexto atual, com o fortalecimento da extrema direita nos últimos anos, culminando para a eleição de presidentes como Daniel Noboa (Equador), José Jeri (Peru), José Antonio Kast (Chile), Javier Milei (Argentina) e Jair Bolsonaro (Brasil). A arqueologia pode ser um agente poderoso para a valorização dos direitos humanos e dos valores democráticos na região, ao reconhecer como patrimônio histórico e cultural as materialidades das violências contemporâneas. O objetivo desse simpósio é reunir estudos que, a partir do viés arqueológico, destrincham, questionam e trazem à tona diferentes formas de violência que fizeram parte da história latino-americana e/ou que ainda estão em voga. Também serão inclusos os que discutem o desenvolvimento da Arqueologia Contemporânea na América Latina, assim como a relevância sociopolítica desta e os principais desafios a serem superados para que esse campo continue crescendo.